A sociedade que nunca dorme

Atualizado: Set 10


Sempre que é necessário fazer a gestão das nossas agendas e acrescentar algumas horas ao dia parece-nos bastante razoável reduzir nas horas de sono, rotulando o sono como dispensável ou negociável.

Mas, será o sono realmente opcional ou até mesmo um luxo nesta sociedade que nunca dorme?


A negligência do sono talvez se inicie no mal-entendido de que o sono é apenas um momento de descanso do corpo acompanhado por uma espécie de dormência da mente. Esta crença não poderia estar mais longe da verdade, uma vez que o sono é uma necessidade biológica não-negociável da condição humana e, na verdade, durante algumas fases do sono a nossa mente está até 30% mais ativa do que quando estamos acordados.


O sono é, e continua a ser, um mistério, contudo sabe-se que é, irrefutavelmente, o comportamento mais eficaz que podemos ter para restaurar a saúde da nossa mente e do nosso corpo todos os dias. Chegou a hora de conhecer e reclamar o seu direito de ter uma noite de sono com qualidade e de se quebrar o estigma em relação ao sono. O sono não é negociável nem é símbolo de preguiça, o sono é vitalidade e fonte de saúde física e mental.




Porque precisamos de dormir?



Através de múltiplos estudos desenvolvidos nos últimos 20 anos, é possível compreender os vários, e quase infinitos, benefícios que o sono é capaz de oferecer todos os dias à saúde da nossa mente e corpo. Ao nível da mente, o sono fortalece e promove múltiplas funções cognitivas, desde a nossa capacidade de aprendizagem e memória até à capacidade de fazer decisões e resolver problemas. Para além disso, o sono equilibra e restaura os nossos circuitos emocionais que permitem regular as nossas emoções e sentimentos mesmo em situações difíceis. Passando pelos benefícios no corpo, o sono repara a nossa barreira imunológica e, consequentemente, promove a nossa capacidade de prevenir o desenvolvimento de infeções e de outras doenças. Adicionalmente, um padrão de sono adequado renova o metabolismo, equilibrando os níveis de insulina e glucose no sangue e está associado à manutenção de uma condição saudável de todo o sistema cardiovascular.



Se o resumo da longa lista de benefícios do sono não foi suficiente para convencer o leitor de que precisamos tanto de dormir como de respirar para o nosso corpo funcionar em pleno, dê uma vista de olhos na, igualmente extensa, lista dos danos de um padrão de sono inadequado. Estudos mostram-nos que dormir menos de seis horas por noite tem consequências adversas na saúde física, tais como, um maior risco de doenças cardiovasculares e gastrointestinais, Alzheimer, diabetes e certos tipos de cancro, e na saúde mental, uma vez que representa um fator de risco para o desenvolvimento de depressão, perturbações de ansiedade e outras doenças mentais.



O que é a Insónia?




A Insónia é uma perturbação do sono bastante comum e caracteriza-se essencialmente por uma insatisfação da qualidade ou quantidade de sono, associada a queixas como “durmo a noite toda, mas não descanso nada” ou “passo a noite meio acordado, meio a dormir”. Para além disso, nesta perturbação está presente uma dificuldade em iniciar e/ou em manter o sono durante a noite. São vários os fatores em jogo no desenvolvimento da Insónia, contudo os mais comuns são: altos níveis de stress; acontecimentos difíceis ou traumáticos; mudança nos hábitos de sono ou jet lag; dor física; estilo de vida sedentário; perturbações emocionais como, por exemplo, Depressão ou Perturbações de Ansiedade; e efeitos secundários de certas medicações.

Viver com a Insónia é um desafio, uma vez que compromete o nosso funcionamento nas várias áreas da nossa vida e causa mal-estar, contudo existem ferramentas eficazes para tratar esta perturbação e alcançar um padrão de sono saudável.




O que é a Terapia de Sono?



A Terapia de Sono Cognitivo-Comportamental é, atualmente, a intervenção mais eficaz e de primeira linha no tratamento da Insónia. A medicação pode ser utilizada como recurso e de forma combinada nos casos mais graves, contudo, isoladamente, a terapia psicofarmacológica não é tão eficaz a longo prazo quando comparada com a terapia Cognitivo-Comportamental.

Como o próprio nome indica, a terapia de sono Cognitivo-Comportamental explora a conexão entre os aspetos mentais (por exemplo, expectativas e crenças acerca do sono) e os aspetos comportamentais (por exemplo, coisas que fazemos que mantêm os sintomas da Insónia).

A fase inicial desta terapia é dedicada à avaliação do padrão de sono; a fase seguinte trata-se de uma (re)educação daquilo que é o sono e regras essenciais para uma higiene de sono saudável; e numa fase posterior é apresentada a intervenção propriamente dita com o objetivo de sinalizar e modificar crenças ou comportamentos prejudiciais a uma noite de sono com qualidade.


Proteja o seu sono e faça dele uma prioridade na sua vida porque, na realidade, ao abdicar de uma ou duas horas de sono estamos a limitar o nosso funcionamento ótimo durante o dia, e a minar a nossa saúde física e mental.


Somos a sociedade que nunca dorme, mas será que estamos realmente acordados?




Fontes:

Clemente, V. (2006). Como tratar os doentes com insónia crónica? O contributo da Psicologia Clínica. Revista Portuguesa de Clínica Geral, 22, 635-644.

Moorcroft, W. H. (2013). Understanding sleep and dreaming (2nd ed.). Springer.

Walker, M. (2017). Why we sleep? Penguin Books.