O tédio prejudica as nossas crianças?


O futuro do mundo depende da felicidade das crianças do presente. Como forma de assegurar o seu bem-estar, a 20 de novembro de 1959 as Nações Unidas aprovaram a Declaração dos Direitos da Criança, proclamando os direitos das crianças de todo o mundo, razão pela qual estamos habituados a comemorar o Dia da Criança, cuja data varia de país para país.


É na infância que os indivíduos desenvolvem a sua estrutura mental. Afinal, os primeiros anos funcionam como uma base para todas as aquisições que o cérebro fará nos anos seguintes.


É claro que ninguém vai atravessar toda a infância sem passar por vivências negativas e, ainda bem, pois de outra forma não seria possível maturar a capacidade de tolerância à frustração. Mas também é verdade que é o acontecimento sucessivo de situações adversas que, a longo prazo, pode atrapalhar o desenvolvimento do cérebro e, até mesmo, alterar alguns sistemas importantes. Entre eles, o sistema neuroendócrino, responsável pela produção de hormonas, e o sistema límbico, responsável pela regulação das emoções.


A pandemia do novo coronavírus trouxe muito stresse para os mais pequenos. Todos eles se depararam com situações de sofrimento — não poder ir à escola, não encontrar amigos e parentes, verem brincadeiras e viagens canceladas e o medo de ficar doente ou ver alguma pessoa querida sofrer com a doença – constituíram as fontes de stress mais frequentes.


O isolamento social obrigou as famílias a conviverem diariamente e a passarem ainda mais tempo juntos. Isso trouxe consequências especialmente negativas para aquelas que apresentam dificuldades de comunicação (não partilham como se sentem, têm dificuldade em expressar desejos, etc). Nestes ambientes, as crianças que já sofriam de algum tipo de perturbação ou sintomatologia agravaram o seu quadro clínico. Com crianças ou adultos, o espaço de diálogo precisa de estar sempre aberto. Para isso, os adultos devem reconhecer os sentimentos das crianças e dos seus semelhantes, estar dispostos a ouvir o que elas têm a dizer e valorizar as suas emoções sempre que elas forem partilhadas. Só assim se consegue alcançar um ambiente familiar acolhedor e securizante.


Mas quando todas as restrições resultantes do controlo da pandemia terminarem, repense um pouco o dia-a-dia dos seus filhos. Se os adultos sofrem com a correria do dia a dia e a falta de tempo livre, imagine o que passa na cabeça de uma criança que tem o dia repleto de atividades. Por mais que sejam educativas ou culturais, acabam por se tornar obrigações e preocupações. Uma rotina lotada de compromissos pode ser muito stressante para as crianças.


Há falsos diagnósticos de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção por termos crianças assoberbadas de atividades, incapazes de viver o presente, incapazes de absorver as aprendizagens do presente. As crianças gerem expectativas de maneira muito diferente de um adulto. Na sua maioria, não conseguem compartimentar a sua atenção por tarefa, pelo que uma sobrecarga de atividades equivale a uma sobrecarga de metacognição sobre as tarefas a executar, o que gera elevados níveis de desatenção aparente. Na verdade, estão apenas em piloto automático. E estão em piloto automático porque nós adultos estamos a tentar prepará-las para um mundo competitivo e voraz.


Mas na verdade, a nossa função é dar-lhes, acima de tudo, uma infância feliz. As nossas crianças podem ser felizes no teatro, na natação, no futebol, na música e na ginástica simultaneamente, mas nós temos de lhes ensinar o significado da palavra prioridade e, só depois, prepará-las para esse mundo exigente, mas sem nunca lhe ocupar as mesmas horas do dia, que nós adultos, temos ocupadas. Afinal, a criatividade surge no tédio e é uma das soft skillsmais importantes e valorizadas neste mundo voraz. Por isso, os pais devem estar atentos para que sempre exista um tempo livre no dia da criança, que são todos os dias, para que ela possa dedicar-se às atividades que quiser e conviver com as pessoas que ama. Agora, mais do que nunca. Agora, proporcionar momentos de atividade livre, tem de ser uma prioridade dos adultos para as crianças.


Criar momentos de tédio onde a criatividade possa surgir é essencial. E para que tal possa acontecer é preponderante limitar o tempo que as nossas crianças passam em frente a ecrãs, seja do televisor, do telemóvel, do tablet, do computador ou da play station. Um estudo publicado por investigadores da Universidade de Calgary na JAMA Pediatrics, uma revista de referência norte-americana, realizado em colaboração com cerca de 2500 famílias, com crianças entre os 2 e os 5 anos, mostra-nos o porquê. Tanto a nível comunicacional como noutros aspetos - capacidades motoras e verbais, competências para desenhar certas formas, entre outros aspetos - o excesso de ecrã é prejudicial. As crianças que passam mais tempo ao ecrã tendem a apresentar défices e atrasos de aprendizagem, segundo este estudo. Tal acontece sobretudo porque há oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento que se perdem. Oportunidades de andar, falar e interagir com outros, que não se utilizam. Oportunidades numa idade crucial. O tempo ao ecrã na infância cria hábitos e a exposição prolongada a jogos de computador durante a infância pode levar a mudanças estruturais nas regiões cerebrais associadas ao vício.


Por vezes inundam-nos com informação infundada e como a indústria do gaming já é a terceira mais forte a nível mundial, claro que serão mais aqueles que nos dizem que os bebés precisam de estar em frente aos ecrãs porque esse é o mundo em que eles irão viver. No entanto, isso é totalmente improcedente e desafia a maior parte do pensamento médico sobre o assunto. Os bebés e as crianças precisam de blocos de construção sociais e emocionais para o desenvolvimento do cérebro e isso vem da interação de um para um com os adultos e pares aos quais eles estão ligados.


O jogo físico e a exploração, o contacto visual e o aconchego são atividades de baixa tecnologia mas de alto impacto, que não devem deixar de ser aproveitadas. Por isso, passe tempo de qualidade com as suas crianças e poupe dinheiro em atividades extracurriculares. O melhor que tem para dar às crianças está em si, está na palma da sua mão e no seu olhar, em qualquer gesto de carinho ou atenção. Está na simplicidade.


Lembre-se, o difícil não é não estar preparado para a complexidade do mundo moderno. O difícil é desligar o nosso botão de complicar; é conseguir voltar à simplicidade, ao momento presente. Então prepare as suas crianças para o presente. Elas terão sempre algo ou alguém a levá-las a conhecer o complexo, o tecnológico, o superficial. Preocupe-se com a essência!

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