Por que amamos?



Quem nunca sentiu este fenómeno, tão poderoso quanto misterioso, que é o amor?

Desde a extrema felicidade que se sente quando se está perto da nossa alma gémea até à profunda tristeza da rejeição.

Mas o que é realmente o amor que todos sentimos mas ninguém consegue explicar? - Luís Vaz de Camões apresenta-nos uma ideia:

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer”


São muitos os poemas escritos, as músicas compostas, e as histórias representadas sobre este fenómeno, e todos nós somos seduzidos por esta temática universal. Estar apaixonado por alguém é um sentimento “único”, mas sentido por todos, quebrando culturas e tempos. A experiência de se estar apaixonado é universal. A outra pessoa passa a merecer um foco atencional de relevo, uma vez que é a personagem principal dos nossos pensamentos, sonhos e motivações. A partir do momento em que se ama, a aceitação é imperativa - existe amor se existir aceitação dos “defeitos”.


A experiência de amar é o reflexo de processos químicos no cérebro. Quando é questionada a causa do amor, alguns acreditam que é profundamente espiritual, mas a ciência moderna dita que o amor é resultado de processos neuroquímicos. Em particular, a experiência de amar é impulsionada por 3 neurotransmissores: dopamina, noradrenalina e serotonina.

  • Dopamina, um dos neurotransmissores responsáveis pelo humor, em geral influencia os processos atencionais, motivação e adição - os ingredientes para se estar apaixonado. Algumas pesquisas demonstram as semelhanças entre consumir drogas como cocaína e estar com alguém que amamos.

  • Noradrenalina, responsável pelas as sensações de excitação, entusiasmo e estimulação que acompanham o amor - “borboletas na barriga” é outra forma muito comum de descrever a atuação deste neurotransmissor. A noradrelina é também responsável pela falta de sono ou de apetite, como se não houvesse tempo a perder para amar.

  • Serotonina, está presente na constante inquietação física e mental, em que se torna díficil sossegar e a pessoa que amamos ocupa grande parte dos nossos pensamentos. Contrariamente aos neurotransmissores anteriores, os níveis de serotonina durante a experiência do amor romântico encontram-se mais baixos - neste caso, menos é mais.


As raízes da ideia de amor romântico podem ser remontadas até há 3.5 milhões de anos atrás.Os nossos antecendentes, provavelmente não estavam motivados a passar o resto das suas vidas apenas com um parceiro, mas sim o tempo suficiente para garantir a sobrevivência da criança nos primeiros anos de vida. Depois disso, ambos os membros do casal separar-se-íam e formariam alianças com outros parceiros. Esta estratégia garantiu a manutenção da espécie e a variabilidade do material genético do grupo. Contudo, também permitiu esboços primários do amor romântico que hoje conhecemos, uma vez que a construção de uma conexão é inevitável quando se cria uma criança.


Contudo, a complexidade do cérebro humano evoluiu, assim como a nossa capacidade para experienciar o amor romântico. Esta massiva evolução dá-se há 1.8 milhões de anos com a chegada da liguagem e da nossa capacidade para nos expressarmos ao outro. Para acompanhar o crescimento do cérebro, também o crânio aumentou significativamente. Contudo, o aumento do volume cerebral significou mais dificuldades no momento do parto de um bebé volumoso, para o qual o organismo materno não estava preparado. Para ultrapassar esta dificuldade, contrariamente ao que acontece nos outros mamíferos, o bebé humano nasce numa espécie de estado inacabado e totalmente dependente de cuidados, uma vez que o seu cérebro e crânio não se encontram completamente formados. Esta dependência forçou os pais a permanecerem juntos por um período de tempo mais longo, e facilitou a experiência do amor romântico.


Há milhões de anos atrás desenvolvemos três forças básicas: o desejo sexual, o amor romântico e o apego a um paceiro de longo prazo. Estes circuitos estão profundamente imersos no cérebro e essência do ser humano, e não deixarão de estar enquanto a humanidade existir. Apesar da nossa capacidade atual para espreitar e vislumbrar os bastidores do amor romântico, não é possível arruinar a magia e as “borboletas” na barriga que sentimos sempre que estamos perto da nossa cara metade. Até porque o amor romântico continua a ser um dos grandes mistérios da ciência da mente. O que é consensual é que o amor está inerente à condição humana e é através dele que nos sentimos vivos.

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