Vinculação Traumática (Trauma Bond)


Porque é que uma pessoa fica num relacionamento abusivo?

Porque não vai embora, simplesmente?



É provável que já se tenha colocado estas mesmas questões ouvindo histórias de relacionamentos onde existe violência (mais ou menos visível), ou notícias de vítimas que demoraram anos e anos para deixarem o relacionamento abusivo ou onde, pior, foi um fim mais trágico que colocou o ponto final no relacionamento.


Pode ser muito difícil entender porque é que alguém fica num relacionamento abusivo com alguém que magoa psicológica ou fisicamente.


A resposta para isso está aqui: o estabelecimento de uma vinculação (que mesmo sendo traumática, não deixa de ser um vínculo).


A vinculação traumática (normalmente conhecida pelos termos ingleses trauma bond) é uma ligação emocional que se desenvolve a partir de um ciclo repetido de abuso, desvalorização e reforço positivo.


O trauma de um abuso pode criar emoções muito fortes e contraditórias que são muito confusas e difíceis de dar sentido, principalmente quando o abuso é alternado com fases de carinho, atenção e intimidade.



Como começa


Formamos vínculos devido à básica necessidade humana de conexão como forma de sobrevivência. E é natural desenvolver um vínculo com alguém que nos trata com carinho.


Muitos relacionamentos abusivos começam com muito afeto e certezas de amor. Os primeiros momentos de abuso podem surgir com muita surpresa para a vítima e, o pedido de desculpas e a certeza de que não voltará a acontecer é acreditada, esperando a pessoa que o abusador volte a ser a pessoa que ela conheceu. Fica mais fácil entender como uma vítima pode tornar-se dependente de um abusador nesta situação e como pode afetar QUALQUER PESSOA, mesmo pessoas vistas como emocionalmente "fortes".


A vinculação traumática pode ocorrer em qualquer situação de abuso, não interessando se o relacionamento dura há muito ou pouco tempo e em qualquer tipo de relacionamento (amoroso, profissional, familiar).


Vamos analisar o ciclo mais típico:



O relacionamento começou com uma bela fase lua-de-mel: com amor e sem problemas. Mas, logo depois:


FASE DE ACUMULAÇÃO DE TENSÃO


Podem ser “coisas pequenas” que a vítima descarta como não tendo importância. À medida que o abusador a tenta controlar, a vítima pode pensar que consegue evitar que o abusador fique realmente irritado/a se fizer o que ele/ela quer que faça. Depois de algum tempo, porém, não importa o que a vítima faça e a fase seguinte começa.


FASE DE EXPLOSÃO


Uma “explosão” pode incluir gritos, ameaças de separação, ameaças de magoar, arremesso de objetos, empurrões, pontapés, e muitas outras formas de violência. A explosão quebra a tensão que se acumulou na fase anterior e não dura muito. A violência tem tendência a piorar com o tempo. Mesmo que seja “apenas” verbal ou emocional, existe a possibilidade de eventualmente se tornar física.


MAS, ATENÇÃO: alguns relacionamentos não tem obrigatoriamente uma fase de explosão bem evidente com agressões físicas ou verbais bem óbvias. O abuso pode-se expressar através de atitudes de negligência, de negação dos sentimentos do outro, de negação da perspetiva do outro, de crítica direta ou velada através de comentários que visam o outro a mudar


FASE DA LUA-DE-MEL


Depois de cada episódio de abuso, o abusador pode expressar o seu amor, arrependimento ou tenta que a outra pessoa se sinta segura no relacionamento ou precise dele. O reforço positivo mantém o ciclo e constitui a fase lua-de-mel. Nesta altura, a conexão é alimentada, tudo é maravilhoso, parece que nada alguma vez esteve errado e é até difícil à vítima recordar o que a incomodava antes, podendo deixar a dúvida: "Será que era só eu a ver coisas?" ou pensar: "Não devia ser assim tão mau".


Com o passar do tempo, torna-se ainda mais difícil sair do relacionamento porque a tensão e as explosões e a repetição do ciclo vão esgotando e esgotando a sua auto-estima. E a vítima está cada vez mais propensa a acreditar que o comportamento abusivo é culpa sua.


Daí ser tão importante aprender a reconhecer o ciclo!



6 SINAIS DE UMA VINCULAÇÃO TRAUMÁTICA

  1. Seu relacionamento é imprevisível - você se sente constantemente pisando em ovos? Você tem medo de interagir com eles porque não sabe como será tratado?

  2. Eles constantemente te traem, mas você ainda dá a eles outra chance

  3. Você se sente responsável pela felicidade deles - você está disposto a sacrificar qualquer coisa para fazer seu relacionamento funcionar? Você esmaga sua própria vontade e desejo de fazê-los felizes?

  4. Seu relacionamento é complexo e envolve falsas promessas - "Prometo que as coisas vão mudar. Isso nunca mais vai acontecer", acreditar que elas vem de um lugar de esperança

  5. Você defende seu relacionamento mesmo que seja abusivo - é difícil acreditar no que os outros estão lhe dizendo que vêem no relacionamento e você acredita que ninguém entende; ou você não vê o abuso

  6. A sensação de familiaridade torna impossível deixar o relacionamento - a perspectiva de sair pode até parecer errada ou desnecessária (uma combinação de vínculo emocional, confiança, manipulação e negação pode fazer com que você não saiba como é realmente a sua situação)


Se identifica estes sinais em algum relacionamento, peça ajuda.


Não é fácil quebrar estes vínculos ou mesmo identificar sinais mais subtis de abuso psicológico que podem nem ser visíveis a outras pessoas.


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